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Design. Um objecto, uma profissão, uma disciplina? Do conceito, surgem várias interpretações. Na língua portuguesa, o termo é muito utilizado, mesmo na sua forma mais comum, apesar de não ter uma tradução directa.

Design [dih-zahyn]

(v.) 1540s, from Latin designare “mark out, devise, choose, designate, appoint,” from de- “out” (see de-) + signare “to mark,” from signum “a mark, sign” (see sign (n.)). Originally in English with the meaning now attached to designate; many modern uses of design are metaphoric extensions.

(n.) 1580s, from Middle French desseign “purpose, project, design,” from Italian disegno, from disegnare “to mark out,” from Latin designare “to mark out”

in Dictionary.com, Define Design — http://www.dictionary.com/browse/design

O termo, como o conhecemos hoje, reafirma-se no início do século passado, no contexto dos grandes movimentos artísticos contemporâneos. Para o desenvolvimento desta disciplina, entre outros casos, podemos referir a influência do construtivismo Russo dos 1900s, e principalmente nas décadas seguintes da Bauhaus (Dessau, Alemanha).

Como é de conhecimento geral, o universo do design reparte-se em várias sub-categorias: de comunicação, industrial, de moda, de interiores, de ambiente, de interacção, e a lista continua… Design existe, então, em tudo o que nos rodeia: nos objectos, no cartaz, na indumentária, no edifício arquitectónico, na cadeira em que nos sentamos, no prato em que comemos, nos livros que lemos.

Para efeitos de comunicação, apelamos a uma abordagem abrangente e partimos do princípio que, aqui, falamos principalmente de “concepção”, do acto de conceber (de criar, de inventar), materializado no gesto de desenhar ou projectar. Ao mesmo tempo, este texto pretende abordar não só a prática de design, mas também a importância da preservação de tudo o que compõe a cultura do nosso lugar, que forma a nossa história e garante o nosso crescimento como humanos.

Manifestações culturais e a relevância do contexto

Assume-se por cultura a combinação de todos os comportamentos, as crenças, os valores e os símbolos geralmente reconhecidos e transmitidos de geração em geração – o hábito do conhecimento ou o saber acumulado. Neste sentido, o design integra e constitui a identidade presente em cada momento; define os marcos da história de qualquer povo ou de qualquer cultura. Este conjunto de suportes essencialmente visuais (gráficos) resumem-se em signos, símbolos, ícones e outros estímulos que compõem a nossa memória individual e colectiva. Como qualquer outra disciplina, o design reflecte a sociedade, e influencia a sociedade; participa na formação (consciente ou inconsciente) de qualquer pessoa nos tempos que correm; integra portanto a cultura de um país.

Poderíamos então dizer que esta prática é responsável pela materialização da cultura em códigos visuais? Serão o design, o desenho e por arrasto a prática do cinema e da fotografia (assim como outras do domínio das Artes Visuais), as principais ferramentas para a construção deste universo imagético que nos rodeia, nos influencia e nos representa?

Costuma afirmar-se que a Arte cria contextos. Seguindo esta lógica, o Design adapta-se ao contexto. Cria, a partir do contexto, para o contexto. Como designers, absorvemos o meio envolvente. É o contexto a principal fonte que alimenta a percepção das necessidades humanas; que capacita o desenvolvimento de soluções comunicativas e funcionais na resposta a problemas sociais e culturais.

The words design, machine, technology, ars and art are closely related to one another, one term being unthinkable without the others, and they all derive from the same existential view of the world. () design formed a bridge between the two [art and technology]. It could do this since it is an expression of the internal connection between art and technology. Hence in contemporary life, design more or less indicates the site where art and technology (along with their respective evaluative and scientific ways of thinking) come together as equals, making a new form of culture possible.

in On the Word Design: An Etymological Essay, 1993 — por Vilém Flusser, filósofo e jornalista checo, referência incontornável para a constituição de uma Teoria do Design.

Como no resto do mundo, existe em Moçambique uma tendência a associar-se forçosamente o design à publicidade. Uma das maiores causas disto, arriscar-me-ia a dizer, terá sido a prática da propaganda, que levou (ou leva) a comunicação visual a assumir um carácter persuasivo e impositivo.

Mais do que uma ferramenta de persuasão para efeitos promocionais ou comerciais, na Anima tentamos assumir a comunicação como uma ferramenta essencial para a divulgação da informação, de forma apelativa e envolvente, e, efectivamente, para a mudança de comportamentos. O design é para nós um módulo transversal ao processo criativo, pressupõe características estratégicas, criativas e executivas. Tentamos fazer dele um elemento unificador, que define um processo, que garante coerência ao desenvolvimento de projectos.

Moçambique: A História, as Artes Visuais e o Artesão

Em Moçambique, a percepção geral relativamente à prática do design merece uma reflexão crítica mais aprofundada. À falta de uma história “oficial” do design Moçambicano fica aqui muito espaço disponível para investigar, estudar ou afirmar.

Merece aqui menção a época colonial, que apesar de ser por vezes desconsiderada (numa intenção estratégica de esquecimento, de uma amnésia imposta), deixou também marcas fortes no tecido social e infraestrutural deste país. A imprensa; as gráficas; as agências de comunicação; os sinais luminosos e outras manifestações tipográficas; os edifícios, apesar de candidatos ao desaparecimento. O design gráfico português acabou marcando uma presença em Moçambique, através dos suportes visuais aqui disseminados, e de designers como Sebastião Rodrigues, João Machado e José Brandão, para referir apenas alguns nomes.

Contemporary Portuguese design is largely international in style, world class in caliber and sophisticated in its execution, regardless of mediumas such, its notable for its plurality, agility and openness to outside influences.

in Chapter 57: The Portuguese School of Graphic Design, do blog/repositório A History of Graphic Design por Guity Novin

O movimento social e a revolução cultural do período pós-independência demonstram uma enorme influência do construtivismo russo e do ideal socialista da época. Ao analisarmos as grandes revoluções políticas socialistas (China, Rússia, Cuba, Angola, entre outros), denotamos claramente o poder e o efeito da comunicação visual e do design gráfico para a prática da propaganda política, com uma identidade visual fortemente definida.

Cartazes

Cartazes produzidos pelo Ministério da Informação – DNPP

Em Moçambique, é importante referir o valor do trabalho de José Freire, Agostinho Milhafre, Flávia Fonseca, para a DNPP (Direcção Nacional de Propaganda e Publicidade, parte integrante do Ministério da Informação). A acrescentar, a prática das Artes Visuais por artistas consagrados como o malogrado mestre Malangatana Ngwenya, Roberto Chichorro, Matias Ntundu, Ricardo Rangel, entre muitos outros, veio reforçar o espólio das artes visuais e garantir várias expressões e linguagens, que através de murais, pinturas, cartazes, fotografias, xilogravuras, compõem um imaginário visual presente até aos dias de hoje.

Artes Visuais

As Artes Visuais em Moçambique. Malangatana, Matias Ntundu, Chichorro

O livro Catálogo dos Cartazes de Moçambique, 1988, edição do Arquivo Histórico de Moçambique (AHM). Uma colaboração de Berit Salström e António Sopa, a publicação é um documento da produção de cartazes no país.

No livro Imagens de uma Revolução, 1984, produzido pelo DNPP – MINFO, Albie Sachs documenta a evolução faseada da prática de pintura em murais existentes na cidade de Maputo.

Seguindo este raciocínio, adicionando à redescoberta que propomos, temos a prática do Artesanato. Esta assenta forçosamente, pelas mãos do Artesão, entre os conceitos de Arte e Design: ao
mesmo tempo que confere ao objecto um carácter de expressão artística, a reprodução de um mesmo modelo “ao infinito” aproxima-o de uma das maiores características do design: o seu efeito multiplicador.

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Pelas mãos do artesão, são desenvolvidas peças que reflectem a influência do passado, que transmitem o conhecimento da técnica, que definem uma identidade local. Estes objectos surgem de uma necessidade de subsistência, aliada a uma necessidade de comunicar, de transmitir mensagens e sentimentos.

Psike

Psikelekedane, expressão do artesanato local, traduz em peças carregadas de emoção, situações mundanas que reflectem o dia-a-dia da sociedade e por vezes mensagens implícitas de teor político.

Preservação, investigação e disseminação

Hoje, denota-se um abandono grande, uma falta de atenção a políticas de investigação e preservação deste espólio cultural. O AHM tem um papel relevante para a sua preservação, no entanto resta ainda muito espaço para valorizar e desenvolver, tanto o próprio Arquivo, como acções para o estudo e preservação destas práticas.

Arquivo Historico

Filipe Branquinho, Arquivo Histórico de Moçambique, 2011

No âmbito da educação, a ENAV (Escola Nacional de Artes Visuais) foi durante muitos anos a principal entidade responsável pelo ensino das artes visuais. Em 2010 surge o ISArC (Instituto Superior de Arte e Cultura), com a criação de três programas de licenciatura (Design, Artes, Animação Cultural). Reconhecido o mérito pela dedicação à formação de entidades para o desenvolvimento das Artes Visuais, fica a necessidade de apoio à manutenção destes órgãos, para que estas mesmas iniciativas não caiam no esquecimento, e que não menos seja considerada a qualidade do próprio ensino; de apelar a uma constante redescoberta de metodologias de investigação, que encaminhem o estudo de linguagens visuais desconsideradas, que bebam deste passado cultural, da nossa história. A definição de um currículo académico revela-se incontornável para a reafirmação de um movimento, para a formação de um cunho característico, e consequentemente, de uma identidade.

Arte em Moçambique de Alda Costa, Babel, 2013

No que diz respeito ainda a políticas de estimulação e divulgação das artes, devemos ressalvar uma certa dificuldade instituída no acesso à informação e a núcleos de disseminação: as galerias, os museus, a documentação e publicação de material educativo. É importante a existência de entidades e indivíduos que ajudem a combater obstáculos e suportem as necessidades dos artistas, designers, artesãos e demais moçambicanos; também de espaços que promovam o produto destes esforços.

Tomando em consideração este legado cultural e visual que temos, o passado acumulado descrito acima, e uma visão critica em relação ao que pretendemos ser e alcançar, tentemos redefinir a nossa identidade no agora. Provoquemos a redescoberta de uma identidade visual e gráfica moçambicana, assumindo-a não como algo estático, mas antes como um processo dinâmico e evolutivo.

Restaria ainda considerar formalização de processos enquanto estímulo para a reflexão, e para o desenvolvimento de métodos. Ao mesmo tempo, a necessidade de valorizar a importância da intuição, do cunho tradicional, este, produto do conhecimento vernacular. Mas isto fica para o próximo artigo.

Informal

A persistência da prática: metodologias e outras propostas

As riquezas culturais de Moçambique não pertencem a uma região, a contribuição artística educação tradicional, dos marimbeiros de Zavala orgulha-nos tanto como a escultura maconde, a filigrana ou bordados de ouro dos ourives de Tete. () Que na arte se procure combinar a forma antiga com o conteúdo novo e depois se origine a forma nova. Que à dança, à escultura, ao canto, tradicionalmente cultivados, se junte a pintura, a literatura escrita, o teatro, o artesanato artístico. Que a criação de uns se torne a de todos, homens e mulheres, jovens e velhos, do Norte e do Sul, para que de todos nasça a nova cultura revolucionária e moçambicana.

— Samora Machel

Neste momento, vivemos uma fase de extrema tensão social, conflitos de ordem política e instabilidade económica. Possivelmente, o debate aqui proposto possa ser por alguns considerado menos importante, ou até dispensável. Provocar o cultivo da arte e do design pode ser uma necessidade desconsiderada, no entanto, apesar de intangíveis revelam-se efectivos, quase palpáveis, os resultados destas práticas. Para tal:

— Procuremos estimular o talento local. A colaboração entre artistas, artesãos e designers constitui uma oportunidade para este desenvolvimento, dentro de um meio envolvente que se revela progressivamente inspirador e construtivo.

— Participemos no desenvolvimento activo de mecanismos de investigação e experimentação individual e colectiva, que venham a potenciar um engajamento com o pensamento crítico e fomentem o florescimento da expressão artística.

— Trabalhemos também para o desenvolvimento de conhecimentos, e de uma rede de suporte a este movimento, não apenas ao nível local mas também ao nível internacional, procurando a participação de Moçambique no contexto africano do design, e de Africa no contexto global do design e das artes visuais.

A memória ensina. O contexto inspira. O ciclo do conhecimento começa com a experimentação. O diálogo e a colaboração acentuam a força de qualquer desenvolvimento, e para tal, oportunidades não faltam.

Vamos falar.

Fogo
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